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Sobre casais, suas contas, e seu mais implacável balanço: a vida cotidiana

Por: Eder Schmidt

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Casais quando se formam se propõem a investimentos mútuos, materiais e afetivos. Quanto  ao plano material, tudo tende a ser mais simples, e avaliar as contribuições de cada um não exige mais do que papel e lápis.

Já quanto ao que é abstrato, as trocas são feitas seguindo regras acertadas desde o início da relação, às vezes explicitamente, mas quase sempre de forma implícita, através de sutis mensagens trocadas sobre cada ponto da vida a dois. Rapidamente, se estabelece um código comum quanto ao que cabe a cada um fazer ou não fazer, no que se refere às diversas demonstrações de afeto e de respeito.

Porém, se o código de trocas é comum, a avaliação de seu cumprimento é pessoal. Resultado: com frequência, alguém acha que está dando mais do que recebe. O bem que se faz (ou que se acha ter sido feito) vira moeda, investida em expectativas. Pouco importa se essas expectativas são cabíveis ou impossíveis, coerentes ou contraditórias. Cobra-se do outro um determinado retorno daquele investimento que se julga ter sido feito.

Apela-se, então, para uma espécie de contabilidade em termos do que é supostamente investido e recebido. O bem ou o mal – em geral o mal – é anotado em uma “caderneta” interna e cobrado a cada prestação de contas. A relação passa a ser discutida com base no alegado prejuízo.

Porém, se nessa contabilidade os valores são atribuídos subjetivamente, raramente serão reconhecidos por ambas as partes. Aí, as contas não fecham. Alguém é cobrado em um débito referente a novas e antigas dívidas; alguém se acha com credito, pois julga que já pagou a mais.

Na verdade, a avaliação a ser feita deve seguir outra linha. Quem sabe, o retorno do que se investe estaria vindo, mas com outras formas? Quem sabe, o investimento que se julga fazer está sendo superestimado? Quem sabe, o que se insiste em dar não é aquilo que o outro quer receber? E, por fim, a avaliação mais sombria: qual a viabilidade daquele investimento a médio e longo prazo? Vale a pena continuar investindo, ou tudo o que se fez foi “a fundo perdido”?

Sem essas reflexões as perdas se acumulam, e nosso mais implacável balanço – a vida cotidiana – dificilmente terá outro gosto que não o amargo prejuízo.

@drederschmidtpsiq

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