A BOLA DA VEZ
Coluna: SEGUIMENTOS - por: Antonio Trotta - Jornalista, Escritor e Poeta - 18 de junho de 2025


O Porto Velho foi o bairro em que vivi parte da minha infância, adolescência e juventude. Deixei o bairro somente para casar-me. O Porto Velho foi uma escola. Aprendi o sentido de socialização, pois vivia entre os garotos e garotas de minha época. Com eles, jogava bolas; com elas, jogava queimada. Repartíamos e nos misturávamos para haver equilíbrio de sexos entre os times. Não valia bolada forte.
A queimada era na rua, e lá nos ajuntávamos para escolher os times e fazer valer os nossos talentos. A vida corria solta e a bola passava de mão em mão. Em final de tarde, feriados e finais de semana, estávamos lá, prontos para a grande partida, a grande investida e a fantástica maneira de nos relacionarmos, de viver em sociedade.
A vida nos impunha limites; os jogos nos ensinavam as regras e as amizades, as conquistas. Corríamos de um lado para o outro. Gritávamos. Torcíamos. Vibrávamos. Aprendíamos a perder e a vencer. Participávamos. Compartilhávamos estratégias, táticas; defendíamos, atacávamos e, no embate, respeitávamos os adversários, não subestimando suas forças. Na época, não tínhamos consciência de tudo isso, mas aprendemos a ter tudo isso em nossas consciências.
Bastava um risco no chão, um pedaço de tijolo, pau ou pedra marcando os territórios que “o grande espetáculo da Terra” estava pronto para começar. Quando tinha alguém assistindo, ou era criança pequena ou era adulto, pois incluíamos todos. Ninguém da nossa idade ficava de fora.
Se o número fosse ímpar, alguém mais forte ou maior ficava com o número menor de jogadores. O equilíbrio passava a ser pela “força” e não mais pela quantidade. O importante era jogar, participar e encontrar na partida uma razão para estar junto, presente e pronto para dar seqüência ao jogo. .
No bairro Porto Velho, desembarquei a minha adolescência e aportei a minha juventude. Lá, encontrei amigos, companheiros de viagens, que cresceram e aprenderam a navegar e a conduzir o leme durante a vida. Muitos ainda continuam no mesmo bairro, na mesma casa, criando filhos.
Penso que morar em um bairro é como jogar na sorte. E parece que a sorte nos colocou no jogo para, definitivamente, jogarmos.
O tempo passa, mas a bola continua rolando. Quem mais quer jogar?
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg





Das brincadeiras ao aprendizado dos limites e respeito para com o outro!!
A vida passa rápida demais. Quanto se vê já deixamos a bola de lado e guardamos a nossa criança interior com ela. Ora de jogar uma partida. Grato.
Maravilhoso texto…“Bastava um risco no chão, um pedaço de tijolo, pau ou pedra marcando os territórios que ‘o grande espetáculo da Terra’ estava pronto para começar.”
Essa passagem captura a essência da simplicidade e da criatividade, mostrando como as crianças conseguiam transformar qualquer espaço em um palco para grandes aventuras e aprendizados. Parabéns!!!!