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NADA,…COMO UM DIA DE DOMINGO

Coluna: SEGUIMENTOS - por: Antonio Trotta - Jornalista, Escritor e Poeta - 18 de junho de 2025

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Sempre gostei dos dias de domingo. Não parece um dia como os outros. Tem sempre algo para não se fazer. É o compromisso velado ao ócio. E tem gente que leva muito a sério o descanso sagrado, a inércia merecida e necessária. Para muitos, domingo é a pachorra semanal conquistada a duras penas. Um dia como esse é como nenhum outro, é domingo e pronto.

Domingo é dia em que se pode dormir até tarde. Aliás, o sábado vem como o advento do repouso. Nele tudo se cria e se inventa; já no domingo, tudo se transforma em descanso, ressaca, lombeira, preguiça e outros cochilos a mais. O que se prorrogou no dia ou na noite de sábado tem, no dia seguinte, a forra de um dia inteiro para descansar.

Quando não se tem nada para fazer, é melhor fazer no domingo. Noutro dia não é a mesma coisa, a mesma sensação de alívio – tem que ser no domingo. Do contrário, deixa de ser domingo; pelo menos, um domingo normal. Esticam-se, no domingo, o sono, a preguiça, o papo, a cerveja, o almoço, os braços e a sesta depois do almoço. Encurtam-se as roupas, as ocupações, os compromissos e o tempo para resolver algum problema.

Domingo é dia de deixar o corpo de molho, no banho-maria, na rede, na cama, na grama, no chão, no vácuo, na inércia profunda. Nada de movimentos bruscos; serviços contínuos; atividades coordenadas, em particular, por terceiros. Horário, sistematização e ordens, nem pensar! Nada vezes nada! É permitido, apenas, sentir o dia passar, com a morosidade de que são feitos os domingos, principalmente, aqueles de cidadezinhas do interior, lentos, tranqüilos, em contínua calmaria.

Correr no domingo só se for por bobagem. Caso contrário, só por muita obrigação, compromisso inadiável, doença ou morte. No domingo, a vida escorrega, desmancha, desliza ou esparrama durante o dia. É a lei do melhor, menor esforço. É nesse dia que se joga conversa fora, se reclama da semana dura, dos sufocos e da falta de tempo. No domingo, acomodado num canto, a gente pede para chegar logo o fim de ano, a cerveja gelada e o tira-gosto. Domingo é um dia ímpar. Não é só um dia da semana para descansar.

A prova é tirar um dia qualquer para não se fazer nada. Não é a mesma coisa, não é como no domingo. Pior ainda é quando um feriado cai justamente no domingo. Perde-se o domingo e o feriado. Paira sempre uma dúvida, sempre um motivo extra para atrapalhar a folga já definida, concebida e culturalmente aceita. Feriado no domingo é insistir no óbvio, no senso comum, no provável que acaba por perder sua característica singular, pois deixa de ser um simples e memorável domingo para ser e ter aquelas obrigações de feriado. Feriado que se preze cai em qualquer dia da semana, menos no domingo. Feriado que cai na sexta ou na segunda é tão louvável que vira feriadão. Feriado no domingo: ou mata o feriado ou morre o domingo.

Nada como um bom churrasco no domingo, assim, bem cedinho. Nada para fazer, a gente apenas esperando a carne assar e a cerveja gelar. Um bom papo rolando solto entre os adultos e a criançada fervendo nas brincadeiras. Tudo isso em um clima de domingo, sem eira e nem beira. Dando ao primeiro dia da semana o descanso a que o próprio dia nos convida e proporciona. Basta ser domingo.

É bom lembrar que gostar de domingo não significa necessariamente ter aversão pelos outros dias. Pelo contrário, por entrar de cabeça nos outros dias da semana é que se enfiam o corpo e a mente num relaxamento profundo, numa espécie de recarga. Se até os trens, os caminhões e as máquinas se desencarrilam, quebram, param, o que se dirá dos simples mortais em pleno dia de domingo?

            Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta

11 Comentários

  1. Ah, que texto maravilhoso …Um convite à reflexão sobre como pequenas tradições diárias podem sustentar o ritmo frenético da vida contemporânea. Para mim, o domingo é o dia cultural do descanso…. Nosso “patrimônio” rsrs‍↔️

  2. “Ver o sol amanhecer
    E ver a vida acontecer
    Como um dia de domingo”
    Já diz a belíssima música de Tim Maia…
    E você, Trotta, retrata com extrema fidelidade o dia de Domingo… É realmente uma sensação diferente…uma sensação de “sem compromisso ” … Infelizmente, a modernidade roubou de algumas pessoas
    essa sensação diferente que mistura sabor
    de descanso com reuniões familiares e
    amigos. Gratidão Vitalícia por nos lembrar
    que é preciso lembrar que é Domingo!
    Amei apaixonadamente seu “Tributo” ao célebre domingo rs!
    Amei apaixonadamente o seu “Tributo” ao Domingo

  3. “Ver o sol amanhecer
    E ver a vida acontecer
    Como um dia de domingo”
    Já diz a belíssima música de Tim Maia…
    E você, Trotta, retrata com extrema fidelidade o dia de Domingo… É realmente uma sensação diferente…uma sensação de “sem compromisso ” … Infelizmente, a modernidade roubou de algumas pessoas
    essa sensação diferente que mistura sabor
    de descanso com reuniões familiares e
    amigos. Gratidão Vitalícia por nos lembrar
    que é preciso lembrar que é Domingo!
    Amei apaixonadamente seu “Tributo” ao célebre domingo rs!

  4. É tão bom senti a essência do domingo, em uma rede de embalar com as pernas pro ar,
    Sem nada cobrar.
    Belíssimo texto, parabéns Trotta!

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