
O assassinato da Série
O problema das 3ªas temporadas é ter que sustentar a trama por mais seis ou oito episódios, quando o argumento da série já se cumpriu. Vítima do próprio sucesso, Killing Eve 3 tenta manter sua audiência abusando das tramas paralelas e do sentimentalismo. Mais adequado seria encerra-la na última cena da 2ª temporada. Só que…
Eve, é claro, sobreviveu, deixou o MI6, e sua vida está bastante decadente. Villanelle tem nova mentora, Dasha, e pleiteia uma promoção n’Os Doze. Sua peregrinação pela Europa continua, mas seus assassinatos são menos charmosos e perdem o elemento cômico que traziam. Eve e Villanelle ainda não conseguiram superar uma à outra. Separadas nos primeiros episódios, ao se reencontrarem não há mais o jogo de perseguição mútua das primeiras temporadas. Vez por outra há uma passagem diferenciada, mas no geral, a impressão é a de um enredo que conduz comodamente o espectador por caminhos já bastante conhecidos.
A força da série estava no vínculo perverso entre Eve e Villanelle, rodeadas por Carolyn e Konstantin. Os três “vilões”, coerentes com sua condição perversa, situavam-se para além do senso comum, o que os tornava cínicos, imprevisíveis e desconcertantes. Porém, na temporada 2020 são personagens banais em uma trama banal.
Para rechear os episódios, os personagens são humanizados; porém, humanizados, eles se descaracterizam. O cinismo de Villanelle dá lugar a um ar adolescente e suas mortes não produzem o impacto de antes. Afinal, nem toda violência é psicopática.
A temporada beira o novelão, onde o mentor de uma organização criminosa administra a adolescência da filha, a veterana agente do MI6 tem DR’s com a primogênita carente, ou a fria assassina curte Elton John com o irmãozinho. Eve é o personagem que se mantém. Inteligente, obstinada, afetiva, mesmo ressentida por tudo o que perdeu. Sobreviveria a uma 4ª temporada?
Eder Schmidt – Psiquiatra e psicanalista
@drederschmidtpsiq