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VARRER O MUNDO

Coluna: SEGUIMENTOS - por: Antonio Trotta - Jornalista, Escritor e Poeta - 01 de abril de 2025

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Quem varre a sua calçada varre o mundo?

Aprendi, observando um amigo. Sempre que o visito, lá está ele, com vassoura nas mãos, limpando o passeio e a calha da rua em frente ao seu trabalho. Percebo que ele não tem fronteiras, pois está sempre avançando sobre as calçadas vizinhas e recolhendo também o seu lixo, suas impurezas e dejetos. Quantas lições estão escondidas neste simples gesto, nesse vai e vem de vassoura na luta diária de colocar “as coisas em ordem”! Mas, o que será que realmente ele limpa? O que realmente aparenta estar empoeirado!?

Nas vezes em que estive observando, pude perceber que ele parece conhecer outros tipos de impurezas, manchas profundas, difíceis de serem removidas de uma só vez, em uma só vassourada – as misérias humanas. Por lá, onde ele varre, passa toda espécie humana, que traz, assim como o vento, suas impurezas e restos de vidas.

Quando as pessoas chegam, se aproximam e começa logo o diálogo. Ele, simplesmente pára de varrer a calçada para, talvez, num gesto de carinho começar a varrer, gentilmente, o mundo e a alma humana. Não numa atitude de quem está limpo e purificado, mas como quem conhece o sofrimento humano e as suas angústias. Como um gari, sabe de sua missão e de sua tarefa, quando solicitado. Quando permitido, varre, ajunta e recolhe cacos, pedaços e impurezas que estavam obstruindo corações, convivências e relações.

Observo que ele não retira apenas as sujeiras aparentes, aquelas que todos veem e passam por cima. Seu trabalho é mais cauteloso; afinal, são vidas humanas que passam todos os dias pelo seu passeio, pela sua vida. Sabe que precisa atuar mais a fundo e remover sujeiras profundas, muitas vezes, petrificadas. Varre onde a vassoura tem dificuldade de alcançar. Insiste. Varre os cantos, as gretas, as frustrações, as ilusões e os medos.

Quantas vezes no dia e quantas vezes no ano ele repete esse mesmo gesto? Varre simplesmente? Não. Varre com a simplicidade de quem está tentando deixar o seu passeio mais bonito, o mundo melhor e as pessoas mais felizes. Varre como quem varre todos os dias as mesmas coisas, as mesmas impurezas, os mesmos restos de sujeiras que parecem teimar em permanecer impregnadas, no passeio, no corpo, na alma, na vida.

Limpa-se e a impureza insiste em voltar, em residir, além da aparência, nas entranhas. Limpa-se e, de repente, num piscar de olhos, a sujeira está lá, de onde parece nunca ter saído. Um deslize e pronto: tudo pode ficar como antes, ou mesmo pior. Quanto se trata de almas, limpa-se e recomeça-se com o mesmo entusiasmo e a mesma perseverança. É preciso limpar sempre, com paciência e esperança. Insistir no esforço, na luta, na varredura da limpidez da alma.

Quem varre o seu passeio sabe que varre o mundo. Livra-se hoje do que se livrou ontem e sabe que tem de se livrar amanhã. O meu amigo não briga com a sujeira e nem com quem suja, apenas limpa. Não limpa com resignação, mas com a certeza de quem, no esforço de deixar pessoas felizes, constrói um mundo melhor e, consequentemente, ganha um passeio mais bonito e mais humano.

O meu amigo, ao varrer a sua calçada, se coloca de frente e perto de quem passa por lá. Muitos param e permitem uma faxina no coração. Outros, ao passar, saúdam-no e deixam a pressa os levarem. Há aqueles que apenas cumprimentam e vão embora. Outros, ao passar, comentam algo e deixam seus rastros. Muitos nada falam, nada comentam, nada percebem, apenas passam.

No passeio do meu amigo tem sujeira, mas para ela tem vassoura e a paciência diária de quem varre. No passeio do meu amigo passam pessoas, mas para elas, quando precisam, há um amigo.

No passeio do meu amigo o mundo passa.

 

Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta

 

Foto: FreePick

27 Comentários

  1. Que texto maravilhoso, Camarada,, Antônio Trotra!

    Sua reflexão sobre a vida, a humanidade e a importância da ação individual.

    A imagem do amigo varrendo a calçada e avançando sobre as calçadas vizinhas é uma metáfora perfeita para a responsabilidade que temos em relação ao mundo ao nosso redor.

    Essas ações tem um grande impacto e que a mudança começa com cada um de nós.

    O gesto simples de varrer a calçada se transforma em uma ação de amor e cuidado pelo próximo.

    A sua reflexão sobre as “misérias humanas” e as “manchas profundas” que são difíceis de serem removidas é particularmente tocante. É um lembrete de que a vida não é fácil e que todos nós temos nossas próprias lutas e desafios.

    Aqui você nos oferece uma mensagem de esperança e otimismo.

    Ela nos lembra de que, mesmo diante das dificuldades, podemos fazer uma diferença positiva no mundo ao nosso redor.

    Muito obrigado por compartilhar esse momento conosco, Camarada.

    É um verdadeiro presente para a alma.

    Violeiro Zelitto Alves
    02/04/25

    1. Gratidão. Suas palavras e reflexões vão de encontro com o texto e sua proposta, pois, afinal quem varre o seu passeio, varre o mundo? A alma agradece.

  2. Belo texto!
    Me lembrei da campanha do Jânio Quadros para presidente da República, em 1960.
    Varre, varre, vassourinha…
    Óbviamente que não era o lixo físico a que Jânio se referia, mas à imoralidade que ele gostaria de limpar ou extirpar em nossa sociedade. Foi um período complicado de perseguição aos costumes modernos e à liberdade que vivíamos naquele início de década, como a minissaia, por exemplo.

    1. O que dizer de um texto profundo em seu contexto…
      No meu varrer mantenho minha mente com EQUILÍBRIO e SABEDORIA de quem sabe o quanto somos Frágeis e ao mesmo tempo Rocha…saber OLHAR e OBSERVAR…

  3. Sou varredor nato. Aprecio o movimento do vai e vem da vassoura e confesso que jamais varri sujeiras pra debaixo do tapete ou de móveis

  4. O convívio diário, favorece o movimento de reciclar, ou, no mesmo ritmo, eliminar as impurezas de ser, ao deparar o outro num gesto simples e diário, varrendo o que perturba a beleza do limpo.
    Também provoca no outro, com esse ato diário, a importância de ser habitante da cidade exercendo seus deveres independentemente se seus direitos são recíprocos. É uma questão de caráter!

  5. Que colocação assertiva, e que traz nas entrelinhas um recadinho de educação. Vemos todos os dias, pessoas atirando lixos nas ruas e calçadas, enquanto pouquíssimos fazem o papel de garis. Me reportei a alguns momentos com meu pai. Quantas vezes acordei com o barulhinho da vassoura e era meu pai varrendo a calçada e quantos trausentes paravam para uma conversa, ora com risadas, e ora com reclamações. E meu pai nem sabia que estava fazendo exatamente isso que você nos trouxe com maestria poética. Parabéns em alto relevo. Amo suas inspirações educativas!

    1. Grato. Lembrar seu pai fazendo o mesmo é prova de que o bem ainda varre e cuida das “misérias humanas” , inclusive nos dias de hoje.

  6. Maravilhosa reflexão…Pequenos gestos de ordem e responsabilidade individual contribuem para um ambiente melhor…A mudança começa na esfera pessoal antes de alcançar o coletivo.

    Abraços dessa nordestina arretada

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