
A coluna de hoje é com Inez Cabral, Acadêmica Correspondente
LENDA SEVILHANA
É noite. A lua ilumina a silhueta magra e esguia que caminha furtiva nas ruas da Cava de Triana, bairro de ciganos em Sevilha.
Ao passar pela taberna, que candeeiros tentam iluminar, desperta comentários:
—Lá vai ele.
—Quem?
—Quem haveria de ser? “El Cachorro”, vai ver sua amante secreta, como sempre.
—Gostaria de saber quem é, deve ser paya e mais linda que a Virgem. Nem olha para as mulheres daqui, todas loucas por ele.
—Melhor, assim sobram para nós.
Uma gargalhada sublinha a tirada.
“El Cachorro” ouve o comentário com um meio sorriso. Ninguém sabe seu nome real, é taciturno e calado, nunca contou para ninguém. O segredo morreu com seu pai.
“É bom que pensem que é uma amante. Não quero comprometer minha irmãzinha, prometi a meu pai cuidar dela.”
A moça visitada na calada da noite por ele, é sua meia irmã, filha de seu pai, já falecido e de uma “paya” também já falecida, que mora do outro lado do rio Guadalquivir, no bairro dos cristãos velhos. Não pode vê-la de dia, não quer comprometê-la. Em 1682 ainda é perigoso ter vínculos com ciganos, mouros ou judeus, chamados de cristãos novos. A Igreja está de olho.
O cheiro dos jasmins e das damas da noite, perfumam o ar. Está preocupado. Achou-a abatida da última vez. Queira Deus que não seja nada.
Atravessa a ponte das Barcas sobre o rio Guadalquivir, ligação direta entre Triana e Sevilha.
Do outro lado da ponte, não percebe a sombra que passa a segui-lo.
É um nobre. Ouviu falar de suas escapadas, e ciumento, cismou que esse maldito cigano seduziu sua mulher, com seu canto.
“El Cachorro” é famoso, até entre os payos. Suas saetas, se fazem ouvir por todos durante as procissões de Semana Santa, e suas sevilhanas ecoam durante a Feira de Sevilha. Vem gente de fora, até nobres, ouvi-lo cantar e tocar. Idolatrado pelas mulheres, ciganas ou não, ele não tem olhos para nenhuma. Por isso os boatos de amante secreta, que ele gosta de ouvir, faz qualquer coisa para proteger a irmã.
Entre becos e vielas da cidade, lá vai “El Cachorro”, seguido pela sombra silenciosa.
Em seu catre, Don Francisco de olhos abertos, não consegue conciliar o sono. Não dorme há dois dias, está preocupado. Uma confraria, encomendou-lhe uma imagem do “Cristo de la Expiración”. Tem que ficar pronto para a Semana Santa, que se aproxima a passos largos. Já talhou o corpo na cruz, mas não consegue visualizar a expressão do último suspiro de alguém.
“Não consigo dormir, vou andar pelas ruas, atrás de inspiração.”
Com sua prancheta e um carvão, sai para caminhar na noite silenciosa.
Ouve um gemido abafado.
“Brancas as paredes viram como se mata
Viram o brilho fantástico da faca
A sua luz de relâmpago e a sua rapidez.”
A sombra some na noite. Don Francisco se aproxima, e lá está “El Cachorro” esvaindo-se em sangue, agonizante.
Não pensa em mais nada. Nem em ajudar o moribundo, nem em chamar por ajuda. Tira a prancheta do embornal, e enquanto “El Cachorro” se esvai, Don Francisco concentrado faz esboços de sua expressão. A vida se apaga nos olhos da vítima. Don Francisco capta o momento e com a felicidade estampada no rosto, volta para casa terminar seu trabalho. O cigano fica lá, esquecido no chão.
O artista está entusiasmado. Hoje é seu dia de entrar para a história, tornar-se imortal, graças a sua obra. Depois do discurso do chefe da confraria, Don Francisco, com orgulho, tira o pano que cobre a imagem.
Alguns segundos de silêncio atônito e um só grito ecoa na cidade:
—É El Cachorro! Está aqui entre nós! Vivas e aplausos incendeiam a multidão.
Hoje, mais de três séculos depois, todos sabem quem foi El Cachorro. É reverenciado todos os anos, na Semana Santa. Um artista popular, sem instrução nem partituras, cuja voz se perdeu no tempo, nunca foi esquecido. Quanto a Don Francisco Ruiz Gijón, escultor e santeiro barroco, ele também é lembrado, imortal talvez para meia dúzia de estudiosos e eruditos.
Academia Caxambuense de Letras – janeiro de 2022