Rádio: o mestre que ainda dita as regras da comunicação

O rádio não é apenas um sobrevivente da comunicação moderna — é um mestre que nunca perdeu a capacidade de ensinar. Enquanto muitas mídias oscilaram entre crises e reinvenções, o rádio seguiu firme, com atributos que parecem inabaláveis: credibilidade, proximidade com o público, instantaneidade e, sobretudo, uma habilidade impressionante de se adaptar às mudanças de comportamento da sociedade.
Não é exagero dizer que o rádio é a verdadeira escola da comunicação. Quem aprendeu a trabalhar diante de um microfone ou nos bastidores de uma emissora de rádio, sabe transitar pela televisão, pelo jornal impresso, pelas redes sociais e até pelo moderno universo dos podcasts e similares que toma conta das redes sociais.
Aliás, os podcasts nada mais são do que uma reinvenção tardia do que o rádio sempre fez: entrevistas, debates, bate-papos e narrativas que se sustentam na força da voz e no poder da escuta.
Nesse novo cenário, o rádio e seus profissionais provam que mantêm o ritmo. Apenas se reinventaram, ajustando formatos e recuperando sua essência: conversar com o ouvinte, abrir espaço para o jornalismo, valorizar a entrevista e estimular o debate.
O auge do FM nos anos 80 e 90 mostrou o lado musical do rádio, embalado por promoções, prêmios e hits que transformaram locutores em celebridades. Mas o tempo virou. O streaming e serviços como o Spotify ocuparam o espaço da música sob demanda. E, nesse contexto, o rádio reencontrou a si mesmo: deixou de ser trilha sonora principal e retomou o papel de companheiro falante, que informa, analisa, entretém e dá voz ao público.
É por isso que vemos movimentos claros no mercado. A Jovem Pan transformou parte de sua grade em talk shows e ainda criou um canal só de jornalismo. A Transamérica, agora sob o comando do empresário João Camargo, se prepara para abandonar de vez o perfil musical pop e se reposicionar como rádio de notícias e debates.

Já a Rede Maravilha, comandada pelo empresário e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chegou a Minas Gerais com uma proposta agressiva: três grandes jornais diários, às 7h, 13h e 19h, coberturas ao longo do dia, programa esportivo, jornal do agronegócio, debates e entrevistas — sem abrir mão de tocar música gospel e oferecer espaços de louvor, oração e cultos, para dialogar com seu público-alvo evangélico. Além da cabeça de rede em Belo Horizonte, outras emissoras no interior do estado completam a nova rede, levando informação com credbilidade pelos quatro cantos de Minas.
Esses exemplos não são isolados. O Grupo EP (ligado à EPTV) investe em rádios populares com forte pilar jornalístico. As tradicionais CBN e BandNews FM seguem como referência no jornalismo em tempo real. E até emissoras menores, comunitárias ou educativas, têm percebido que o segredo não está em competir com playlists digitais, mas em entregar algo que nenhuma tecnologia substitui: a palavra dita ao vivo, com contexto, emoção e responsabilidade.
O futuro do rádio, portanto, não será escrito pelas ondas que o carregam, mas pela sua essência. Seja no dial, no aplicativo, no streaming ou na caixinha de som inteligente, o rádio permanecerá atual enquanto preservar sua credibilidade e o poder da fala. Se uma notícia foi ao ar pelo rádio, há uma certeza silenciosa entre ouvintes: ela foi checada, apurada e entregue por profissionais que sabem o peso de sua voz.
E, enquanto muitas mídias buscam relevância no mundo digital, o rádio segue fazendo o que sempre soube: estar ao lado do ouvinte, como um companheiro fiel.
Por: Sérgio Monteiro – radialista há 40 anos, jornalista, comunicador.
imagem: ilustrativa




