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Quando a gritaria não é por direitos, é por lucro

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A gritaria de parte do empresariado contra a mudança da escala 6×1 não tem nada de técnica, nada de humanitária e muito pouco de preocupação com o “futuro do país”. Ela tem nome, sobrenome e endereço certo: medo de mexer no bolso de quem já ganha muito.

Não importa se a empresa é grande, média ou pequena. O ponto central não é o tamanho do CNPJ, é o tamanho do lucro. O que incomoda não é a reorganização da jornada de trabalho, mas a possibilidade de reduzir margens que, em muitos casos, são obscenamente altas.

Uma reportagem exibida recentemente pela CNN escancarou isso com números difíceis de contestar. Um exemplo citado foi o de uma fábrica de calçados que chega a operar com 150% de lucro sobre o produto final. Diante da eventual mudança na escala de trabalho, o argumento surge rápido: “o custo vai aumentar”, “o preço final vai subir”, “o consumidor vai pagar a conta”.

Mas a pergunta que ninguém quer responder é simples: essa empresa não sobreviveria com 120% de lucro? Ou com 100%? Que, convenhamos, já seria um lucro gigantesco para qualquer atividade econômica minimamente honesta.

A reação exagerada revela mais sobre privilégios do que sobre viabilidade. Será mesmo impossível reduzir um pouco o padrão de vida de quem acumula muito? Menos viagens internacionais por ano. Menos vinhos caros. Menos joias, menos carros trocados a cada lançamento. Talvez adiar a compra do próximo cavalo de raça, da próxima obra de arte ou daquele imóvel “para investir”.

E mesmo entre os empresários que não fazem parte da elite bilionária, a lógica é a mesma. Comer fora cinco vezes por semana pode virar três. O luxo cotidiano pode virar conforto responsável. O lucro pode diminuir — sem que isso signifique falência, caos ou desemprego em massa.

O que está em jogo não é o fim das empresas, mas o fim da ideia de que qualquer redução de margem é inaceitável, mesmo quando do outro lado há trabalhadores exaustos, adoecidos e sem tempo mínimo para viver.

A escala 6×1 não é apenas um modelo de trabalho. Ela é um símbolo de um país que normalizou o cansaço extremo de muitos para sustentar o excesso de poucos. Questioná-la não é radicalismo. É, no mínimo, um convite a repensar prioridades.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja mudar a escala.
Talvez o escândalo seja perceber que, para alguns, abrir mão de uma fração do lucro é mais impensável do que garantir dignidade a quem trabalha.

E isso diz muito mais sobre quem grita do que sobre quem propõe a mudança.

Artigo opinativo de Wanderson Braga Sousa – publicitário 

Imagem: ilustrativa – redes Sociais

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