
Observo um felino, ainda filhote, em sua curiosa brincadeira: correr atrás do próprio rabo. Parece, ao mesmo tempo, divertido e inconformado, às voltas com esse outro que o engana, mas que não é nada além de um aspecto dele mesmo. Desprovidos de uma cauda há milhões de anos, e com coisas mais produtivas a fazer, os humanos não se perdem na irracionalidade que define aqueles animais. Não, mesmo?! Não sei.
Em primeiro lugar, porque um outro que, de fato, não é ninguém além de nós, vive nos surpreendendo. Acusado por nossos fracassos, enaltecido em nossas paixões, adorado pelas graças alcançadas, responsabilizado por nossas repetições … Quando “sentamos sobre o próprio rabo para falar mal do dos outros” esse outro é, mesmo, “outro”?
Ou, não passa de uma extensão nossa sobre a qual (como os filhotes) resolvemos investir? Quantas vezes aqueles a quem creditamos nosso bem e nosso mal, não seria mais bem descrito na primeira pessoa?
E lá está o filhote correndo atrás do rabo, em um jogo no qual ele mesmo impossibilita a realização do que pretende, persistindo em um movimento circular que, sabemos, não vai levar a nada. Humanos não fazem isso! Ou fazem?
Quem nunca? Quem jamais, sequer uma vez, algumas vezes, ou a vida toda, cuidou para afastar de si o seu maior propósito, creditando ao destino (ou a aquele “outro”) seu fracasso?
Quase sempre são tristes os relatos de humanos correndo atrás do rabo. Racionalizar responsabilidades ou delega-las ao “outro” não costuma aplacar as perdas que isso impõe. Há milhões de anos atrás, correr atrás do próprio rabo talvez pudesse ser divertido, como é divertido para os irracionais filhotes. Mas, os atributos que, com a evolução, ganhamos e perdemos nos tornaram muito diferentes daqueles pequenos felinos. Ou, nem tanto?
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@drederschmidtpsiq
Eder Schmidt é médico, psiquiatra e psicanalista, ex-professor da Faculdade de Medicina da UFJF.
Foto ilustrativa = Pexels – Free




