MUROS E ÁLCOOL EM GEL

A expressão, em si, assusta: “Isolamento social”! Mas estamos lidando com algo que não vemos, que não sentimos, cujos efeitos nos são apresentados de maneira escancarada a cada vez que nos alcança alguma modalidade da mídia. Conscientes, nos isolamos! Em nome da vida, nossa, dos nossos e de quem eu nem conheço, abro mão de tudo e me confino. Afinal, o meu direito vai até onde começa o direito do outro. Ou o meu direito vai até onde permite minha responsabilidade.
A vida cercada por muralhas já foi, por muito tempo, a alternativa para a segurança. Com essa garantia ancestral e frascos de álcool em gel, imaginamos os invasores do lado de fora e nos isolamos em paz. Mas algo mais parece ter ficado excluído do nosso purificado cotidiano. Se não, de onde viria essa inquietação ou essa clara ansiedade? Óbvio: como ficar à vontade quando algo se aproxima com um inventário de milhares de mortes? E, se um número infinitamente maior sobreviveu, todos tiveram que lidar, em graus diferentes de consciência, com a possibilidade de perder a vida, levando em conta uma vulnerabilidade em que preferimos não pensar.
Não se torna, assim, compreensível a inquietação? Então, acredite, é menos difícil lidar com ela, falar dela, do que tentar ignorá-la ou escondê-la. Entenda que o seu surgimento, ou o seu agravamento, é circunstancial, e que, como você já disse tantas vezes, “na vida, tudo passa”! Nem mesmo precisamos negar a doença ou precauções, como se isso nos livrasse de seus riscos. E mais, a tecnologia nos permite transformar o “isolamento social” em mero “distanciamento físico”, e uma nova rotina, com novas tarefas, pode ser aplicada às necessidades do castelo e à convivência com os que nele se encontram igualmente confinados, igualmente inquietos, igualmente incertos.