Lavras

Muito além do aroma: pesquisas da UFLA revelam potencial dos óleos essenciais no controle de fungos e conservação de alimentos

Estudos conduzidos na universidade já apresentam resultados na inibição de micro-organismos e pragas, como alternativa para o uso de produtos sintéticos e ampliar soluções naturais na cadeia produtiva de alimentos

Ouça essa matéria  

Para muita gente, os óleos essenciais ainda estão associados apenas ao aroma (presentes em difusores, cosméticos ou produtos de bem-estar). No laboratório, porém, eles revelam um potencial muito mais amplo.

Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), pesquisas conduzidas no Laboratório de Química Orgânica – Óleos Essenciais investigam essas substâncias naturais como alternativas no controle de micro-organismos, na conservação de alimentos, na agricultura e até em aplicações voltadas à saúde.

Os óleos essenciais vêm sendo largamente utilizados, principalmente pelas suas atividades biológicas, como fungicida, bactericida, inseticida e antioxidante”, explica a coordenadora das pesquisas, Maria das Graças Cardoso, Professora Titular do DQI e Pesquisadora 1A do CNPQ.

Extraídos de diferentes partes das plantas como folhas, flores, cascas, raízes e sementes, esses compostos orgânicos são sintetizados em pequenas quantidades, exercendo funções importantes para a própria planta.

Eles são metabólitos secundários, formados em quantidade muito pequena, mas com papel importante na proteção e na adaptação da planta ao ambiente.”

 

 

Da extração ao entendimento químico

No laboratório, tudo começa com a extração pelo método de hidrodestilação, técnica que utiliza apenas água para extrair os compostos voláteis presentes no material vegetal.

A partir daí, os óleos passam por caracterização química e seguem para diferentes testes biológicos, realizados em parceria com outros departamentos da UFLA e de outras Universidades no país e no exterior.

Um único óleo essencial pode ter até 50 compostos orgânicos”, explica a doutoranda Carolina Salles Freire.

Segundo ela, fatores como clima, solo, época do ano e parte da planta influenciam diretamente tanto o rendimento quanto a composição do óleo.

A região de coleta, a temperatura e a umidade interferem muito. Isso impacta tanto a quantidade obtida quanto as propriedades do óleo.”

Resultados que avançam para a saúde

No doutorado, Carolina investiga diferentes aplicações dos óleos essenciais com foco na saúde humana.

O trabalho envolve testes de atividade antioxidante, antibacteriana, cicatrizante e antitumoral.

“Esse projeto envolve o estudo de bactérias que podem causar infecções de pele, como Staphylococcus aureus, além de estudos em células humanas para avaliar o potencial antioxidante, cicatrizante e antitumoral dos óleos essenciais.”

Aplicações no controle de pragas e parasitas

A mestranda Joyce Amélia Carvalho Silva trabalha com o óleo essencial de cominho, avaliando sua ação sobre bactérias, fungos e insetos associados a alimentos, especialmente o milho.

Conseguimos resultados interessantes tanto com os fungos quanto com insetos. São organismos que afetam diretamente a qualidade dos alimentos.

Entre os alvos estão os fungos dos gêneros Penicillium e Fusarium, além de insetos considerados pragas agrícolas.

Já a mestranda Juliana de Xisto Silva direciona os estudos para o controle de pragas e doenças que afetam a produção agrícola.

Nosso objetivo é gerar dados que possam contribuir, futuramente, para o desenvolvimento de produtos voltados ao controle de insetos e fungos.”

Ela também trabalha com nanoemulsões, estratégia que permite aumentar a eficiência dos óleos e controlar a liberação dos compostos ativos.

A Dra. Danubia Aparecida de Carvalho Selvati Rezende realizou pesquisas com diferentes óleos essenciais com o objetivo de avaliar o efeito carrapaticida. Tais estudos se mostraram promissores, em baixas concentrações, para o controle desse parasita bovino (Rhipicephalus sanguineus).

Integração com tecnologias e resultados em alimentos

A Dra. Gabriela Aguiar Campolina avançou na aplicação dos óleos essenciais em sistemas voltados à conservação de alimentos, especialmente no controle de fungos e insetos.

“O que mais nos chamou a atenção ao longo da pesquisa foi perceber que os óleos essenciais não atuam apenas de forma isolada, mas podem ser integrados a tecnologias já existentes, como os revestimentos comestíveis, potencializando seus efeitos.”

Segundo ela, os resultados já indicam eficácia prática, principalmente em alimentos mais sensíveis.

“Obtivemos resultados expressivos na inibição de fungos e na redução da infestação por insetos, especialmente em frutas mais sensíveis, como o morango.”

Caminhos para aplicação na indústria

Outra pesquisa, foi a da Dra. Cássia Duarte Oliveira mostrando que os óleos essenciais atuam na interface entre os resultados laboratoriais e sua aplicação na área de alimentos, especialmente na conservação e segurança de produtos perecíveis.

No projeto, ela trabalhou com o uso de óleos essenciais associados a tecnologias como revestimentos comestíveis, com foco na redução de contaminações e no aumento da vida de prateleira.

Isso mostra que é possível avançar para soluções mais naturais e eficazes, reduzindo a dependência de produtos sintéticos e contribuindo para uma cadeia produtiva mais segura e sustentável.

Segundo a pesquisadora, um dos principais desafios está em transformar esses resultados em soluções viáveis para a indústria, considerando fatores como estabilidade dos compostos, liberação controlada e impacto sensorial nos alimentos.

A Dra. Danubia Aparecida de Carvalho Selvati Rezende realizou pesquisas com diferentes óleos essenciais com o objetivo de avaliar o efeito carrapaticida. Tais estudos se mostraram promissores, em baixas concentrações, para o controle desse parasita bovino (Rhipicephalus sanguineus).

Desafios e próximos passos

Apesar dos avanços, a pesquisa ainda enfrenta desafios importantes, entre eles, a variabilidade natural dos óleos essenciais.

A maior dificuldade de trabalhar com óleo essencial é a variabilidade da composição”, explica a professora Graça.

Outro ponto está na sensibilidade desses compostos, que podem se degradar na presença de luz, calor e umidade.

Por isso, estratégias como nanoencapsulação e formulações controladas vêm ganhando espaço dentro da pesquisa.

Mais do que aroma

Embora muitos estudos ainda estejam em fase laboratorial, os resultados já acumulados mostram que a pesquisa com óleos essenciais na UFLA avançou para além da etapa inicial.

A planta produz esses compostos para se proteger; e a gente quer estudar isso para também se proteger”, resume a professora.

Ciência que gera conhecimento e formação

Os estudos integram um projeto mais amplo que reúne diferentes áreas da UFLA e já apresenta resultados consistentes.

Ao todo, a linha de pesquisa contribuiu para o desenvolvimento de várias teses de doutorado, dissertações de mestrado e a formação de estudantes de iniciação científica, além da publicação de mais de 350 artigos científicos em periódicos nacionais e internacionais.

Os projetos contam com financiamento da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), com gestão administrativa e financeira da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural).

É essa estrutura que permite que a pesquisa avance, forme novos pesquisadores e amplie o uso de soluções naturais em diferentes áreas.

Por Simone Paiva
Analista de Comunicação – FUNDECC

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo