
Um dia desses, zapeando por canais menos eruditos, ouvi alguém argumentar que, em muitas circunstâncias, sustentar um relacionamento onde o interesse financeiro fosse o motivo óbvio não deveria ser, a priori, objeto de desprezo. Afirmativa de impacto, que alguém que teve a coragem de fazer em público. Afinal, ela contraria todos os parâmetros do amor cortês e afronta as mais básicas idealizações que regem a convivência nos casais. Ou o vínculo é sublime, apoiado nas trocas mais abstratas, ou não merece o respeito.
Ideal? Sublime? Imaterial? Que atirem a primeira pedra aqueles cujos relacionamentos estão sustentados apenas por esses fatores! Mas, somente aqueles capazes de fazer uma leitura ampla, profunda e honesta do relacionamento que vivem. Dispensam-se hipocrisias!
Falo daqueles que aceitam que, paralelo a algo indizível, um relacionamento também pode perdurar pelo medo da solidão, da perda material, da perda de parte da identidade social, do peso de se criar filhos sozinha(o) ou da tristeza de se afastar deles. Somente aqueles que, paralelo ao registro de uma bela história, levam em conta o medo das noites e fins-de-semana cuja única companhia serão os filmes e as séries; ou os que preveem a preguiça para se começar tudo de novo.
Sim. Porque um casal se liga, se apoia e se fixa a partir de uma infinidade de trocas, das mais românticas às menos confessáveis. E, de mais a mais, quem pode arbitrar sobre o papel que alguém terá na vida de alguém? Uma vez que se reconheça algo além do amor romântico, qual a fronteira entre o aceitável e o inaceitável. Como demarcar na vida do outro, até onde é o digno e a partir de onde é o infame?
Cada um sabe de si e de sua circunstância. E do valor de cada pró e de cada contra. Cada um sabe do que estará disposto a receber e aceitar em nome de ter alguém, de estar com alguém, de poder lançar, por algum motivo, um olhar diferenciado a um outro, ou receber desse um olhar diferenciado.
No mais, é a arrogância de se valorar intimidades alheias, de legislar sobre sentimentos que não os seus. Algo que só se sustenta apoiado sobre a hipocrisia.
Dr. Eder Schmidt é médico, psiquiatra e psicanalista.
@drederschmidtpsiq
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