LEMBRANÇAS AO VENTO
Coluna: SEGUIMENTOS - por: Antonio Trotta - Jornalista, Escritor e Poeta - 21 de maio de 2025

Quando menino, no inverno de Itajubá, o vento me atormentava, pois, além de forte, era frio. Ao sair às ruas para brincar ou ir à escola, dava de frente com ele e era preciso encará-lo. O vento batia gelado e, logo, o meu rosto parecia endurecer, minhas mãos ficavam frias e doloridas. Quando íamos em bando para a escola, corríamos para fugir do frio e, ao mesmo tempo, esquentar o corpo. Às vezes, conseguíamos enganar o frio, mas não o vento. Esse batia de frente, na ida; e nas costas, na volta. Do inverno até que sempre gostei, mas preferia que viesse sem ventania como complemento de estação.
A cada vez que saía à rua ou passeava pela praça da cidade, o vento parecia me acompanhar e a todos que ousavam desafiá-lo. À época, usava cabelos compridos e crespos. O vento cuidava de enrolá-los ainda mais. Aquilo sempre me incomodou, mais do que as folhas que voavam das árvores ou se levantavam do chão e vinham em nossa direção.
O vento parecia querer brincar com a gente, principalmente com as crianças. Vez ou outra tinha que sair correndo atrás de algum papel que, literalmente, voava do meu material escolar. Parecia que aquela corrente de ar ficava espreitando a nossa ingenuidade e descuido para, logo, agarrar uma de nossas folhas e fugir com ela: “Vupt!”. Ainda por cima, parecia nos provocar como se dissesse: “ninguém me pega!”. O raciocínio e a rapidez tinham que trabalhar juntos, pois se alguém deixasse o material no chão para correr atrás de uma folha, o vento passava e bagunçava tudo. Se corresse com o material nas mãos, a dificuldade era sempre maior; além do risco de tudo ir para o chão, algumas folhas certamente se levantariam, como as das árvores, e tudo estava perdido.
Lembro-me de que valia tudo: do correr ligeiro para alcançar o papel que começava a voar até pisar em cima dele para não deixá-lo nas mãos do vento. Para quem não tinha uma mochila ou bolsa, a melhor forma era colocar todo o material frente ao peito e segurá-lo com unhas e dentes para evitar usar os pés e o desespero. Quantas provas ao vento, quanto trabalho!!! Depois de todo esforço e da reconquista, risadas surgiam para aliviar o cansaço e a tensão. O inverno ficava por conta do frio, a diversão por conta do vento.
Muitos anos se passaram, cresci e o vento acabou por se acalmar. Cheguei mesmo a sentir sua falta. Acabei, outro dia, comentando com um dos meus filhos sobre o vento forte que vinha com os antigos invernos de Itajubá. De repente, a temperatura muda, a previsão do tempo anuncia uma frente fria para o Sudeste. Já no final do inverno, o frio chega e, com ele, o vento. Saí às ruas, passei pelas praças e curti o vento como um velho amigo que voltou. Parece ser uma visita rápida, mas, por incrível que pareça, sua chegada aqueceu o meu coração de menino.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta





Sensacional! Peguei carona nas suas lembranças e voei com o vento da nossa infância. Gostei demais. Ele continua a bater no rosto e sem dó, mas crescemos e não brincamos mais. Usamos jaquetas “ corta vento” e não carregamos papeis nas mãos. Ah! O tempo!…. Parabéns pela sua bela crônica que cutucou o meu coração .
Que bom que lembranças voaram até vc. Que o vento trouxe bons momentos. Grato.
Bom dia
Este texto nos mostra que ser criança é permitir explorar sentimentos, através das aventuras em simplesmente SER criança. Hoje percebo que o vento na nossa infância… da a certeza da liberdade em explorar riscos em poder sentir odesconhecido (vento) no rosto…quando adulto percebemos que este desafio de estar no vento me ensina a importância em ser firme e determinado diante dos desafios desafios que a vida nos impõe…
Quando criança permitimos ser lúdicos e felizes pois tudo é novidade…inclusive correr contra o vento e correr riscos na infância, NÃO viveu como criança”.
Nossa criança livre voo nas asas do vento.
Texto maravilhoso…O vento nos acompanha, invisível e insistente, desalinhando pensamentos, trançando histórias nas curvas dos nossos cabelos e passos.
Como é bom ser criança. Melhor ainda lembrar dos tempos de criança. Acho que hoje às crianças nem percebem as ventanias…