Não sou afeito a jogos, mas volta e meia ouço histórias que me fazem pensar em mesas de pôquer. Dizem que o pôquer é um jogo de estratégia, onde, no entanto, a sorte também tem peso. Nele, é preciso saber decidir o quanto apostar, quando sustentar a aposta e quando deixar a mesa. E é muito tênue a linha que separa o ganhar do perder e, por isso, basta uma única jogada, uma única escolha malfeita, para lançar o apostador a uma derrota, por vezes, irremediável.
Mas, não são os adictos em apostas que me remetem ao jogo. São histórias do dia a dia, mais que tudo de relacionamentos. Toda relação é uma aposta que se faz, e, como no pôquer, a sorte importa, mas importa mais a percepção clara da cena que se desenrola. É isso o que permite decidir o quanto apostar, quando sustentar a aposta e quando deixar a mesa. Também aqui, uma aposta malfeita pode levar a uma derrota, por vezes, de difícil reversão.
Porém, (como em tudo) o que é ruim ainda pode piorar, principalmente pela tentativa cega de reverter a perda, negando a inviabilidade de uma relação. Insiste-se no crescente investimento em jogos fracassados, na tentativa resgatar o afeto apostado. Como se, ao fim, se pudesse dizer: “Aqui jaz Fulana (o) de Tal, que viveu e morreu tentando recuperar o que perdeu”. (Ou, quem sabe, tentando recuperar o que nunca teve!)
Às vezes é muito difícil fazer entender os meandros do jogo, evitando-se a ruína total do amor-próprio. Afinal, se as mesas de pôquer têm um enquadramento bem definido, os relacionamentos mesclam vários jogos, cujas regras e movimentos lutam por permanecerem obscuros.
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Dr. Eder Schmidt é médico, psiquiatra e psicanalista
@drederschmidtpsiq



