
Quem me descreveria da maneira mais precisa?
Sem pensar muito: – Eu!
Sem dúvida, há em cada coisa que vivo sentimentos que só a mim afetam, nuances que só eu alcanço, intenções que só eu conheço. Ninguém além de mim pode avaliar o impacto de cada momento ou o jogo de forças em cada circunstância. Afinal, nada mais impossível do que a velha proposição “ponha-se no meu lugar”.
Afirmo minhas qualidades e admito meus defeitos, tudo muito claro para mim.
Mas, tudo o que sou é aquilo que sei de mim? Quanta pretensão!
E quanto ao que provoco no outro? (Ou, o que provoco repetidamente no outro?) E quanto às autoindulgências que insisto em não perceber, as incapacidades que me escapam aos olhos, ou, pior, o malfeito de que não me julgo capaz? Esses, sem dúvida, os outros veem. Ou melhor, só os outros veem.
Havia, antigamente, um meio de publicidade que consistia em um homem carregando duas placas, uma à sua frente, outra às suas costas. Andamos pela vida como esse homem. Na placa à frente – a que podemos enxergar – nossa ética, nossas aptidões, nossos melhores sentimentos. Às costas, apenas à vista dos outros, tudo aquilo que insistimos não nos pertencer.
Inútil supor que essa denegação nos trará a paz. Nada deixa de provocar efeitos pelo simples fato de não ser visto. Melhor procurarmos por algum reflexo daquela placa que não vemos. Esse reflexo virá, com certeza, de uma abertura honesta para alcançarmos as imagens com que o outro nos descreve. Gostando ou não, isso também sou Eu.
Dr. Eder Schmidt é médico, psiquiatra e psicanalista.
@drederschmidtpsiq
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Foto de Capa: ilustrativa free Magnific




