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Jornalismo é com quem tem diploma. O resto é palpite

Semana passada, renasceu, em pleno Brasil da polarização, o debate sobre a obrigatoriedade do diploma de ensino superior para o exercício do jornalismo. O ministro do STF Flávio Dino defendeu o retorno da exigência, no debate em torno da decisão de outro integrante da corte, Alexandre de Moraes, que determinou busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luiz Pablo, autor de reportagens críticas a Dino. O próprio Supremo derrubou a condição em 2009, por meio de ação relatada pelo hoje decano Gilmar Mendes, que misturou laranjas – o preceito constitucional da liberdade de expressão – com bananas – o ofício de jornalista. Liberou geral o acesso à profissão, que, em consequência, decaiu ferida de morte, pelo despreparo técnico e a desnecessidade de parâmetros éticos de seus novos praticantes – literalmente qualquer um.

A sentença de 17 anos atrás teve aplauso empolgado dos empresários da mídia hereditária, protetorado que há décadas controla a comunicação no país. Ofício tão essencial e poderoso descolou-se de outros com semelhante importância. Professores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, veterinários, dentistas, contadores, psicólogos, enfermeiros, bibliotecários, economistas, fonoaudiólogos, nutricionistas, farmacêuticos, químicos, biomédicos, fisioterapeutas, administradores de empresas, relações públicas – todos exigem o registro (conseguido somente com o diploma de ensino superior) para serem praticados. Aos jornalistas, vedou-se a proteção. Viramos de segunda classe. Inferiores. Série B das carreiras.

A narrativa, legítima como uma nota de R$ 4, tenta igualar jornalistas a blogueiros, comentaristas, influenciadores e toda sorte (ou azar) de palpiteiros, que apontam para si mesmos a câmera de um celular e reproduzem as vozes de suas (deles) cabeças. Encontra-se até conteúdo de qualidade – pouco –, em meio ao oceano de imprecisão, manipulação, desonestidade intelectual, desequilíbrio, histeria, desinformação, erros, erros e erros.

Ainda assim, agarremo-nos à liberdade de expressão. O valor deve prevalecer, inegociavelmente, pelos parâmetros civilizatórios, muito além da Constituição. Quem quiser falar, à vontade. Ressalvados os limites previstos na lei (e, suplica o colunista, a boa educação), a bronca, o choro, o discurso, o clamor, a exaltação, o lamento são todos livres.

Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Sem o devido cuidado com a informação, os cidadãos ficam expostos a riscos terríveis e o estado de direito acaba fragilizado. Saber como, o que e quando divulgar; ser preciso, objetivo e claro; proteger as fontes na dosagem apropriada; encadear os fatos em ordem lógica; situar os acontecimentos no curso da história; denunciar os descalabros, sem omitir as obrigatórias alegações dos acusados, o famoso “outro lado”; e exercitar permanentemente a responsabilidade social com as notícias são alguns deveres indissociáveis do jornalismo. Nada a ver com a palpitagem desenfreada desses apocalípticos dias digitais.

Notícias, ensinou Anna Scott, são eternas, revivem e revivem sempre que se pesquisa o mote delas. Veiculadas equivocadamente, permanecerão assim pela eternidade, porque nenhuma correção consegue se equiparar em força à divulgação inicial. A história – a real, não a do cinema – está lotada de vítimas das barbeiragens de quem não conhece as incontáveis nuances e camadas do ato de bem informar.

Trechos da coluna de Aydano André Mota no portal Projeto Colabora

Jornalismo é com quem tem diploma. O resto é palpite

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