Na medida do possível, procuro me manter longe das pessoas de mau caráter. Mas, também tenho medo dos bons. Daqueles que, invariavelmente, se mostram bons, com um eterno sorrisinho condescendente, voz mansa, afago complacente, um certo ar superior que apenas a infinita benevolência permite
Porém, não vejo nenhum brilho em uma bondade que surge a partir da negação ou da ocultação do mau, vedado ao próprio olhar e/ou ao olhar do outro. O belo gesto tem valor quando se sabe que estava em jogo a tendência oposta, e que a dúvida entre o bem e o mau foi resolvida pelo altruísmo.
Afinal, qual o valor de se optar pela delicadeza se não há a alternativa – por vezes insistente – da crueldade? Se é negada a tentação da intolerância, qual a dificuldade em se ser acolhedor? Se a arbitrariedade é algo impensável, onde está a grandeza de se agir com justiça?
Somos complexos e contraditórios, nossa ambivalência está em tudo, e a natural tendência à maldade não deixará de existir por ter sido ignorada ou ocultada. Continuará presente, ativa, e, pior, irá agir disfarçada em outras formas.
Quanto a aqueles que, para se mostrarem “bons” precisam encobri-la, permaneço atento a eles, sabendo que, em algum momento, lhes escaparão outras características do humano, seja em uma inexplicável recusa, uma injusta parcialidade, um julgamento cruel …
Bondade, justiça, condescendência, acolhimento são respostas que se esperam de qualquer um. Compõem o nosso lado mais sagrado. Mas, seus opostos são igualmente humanos e, como tal, inspiração habitual para nossas tendências. É possível admiti-los, é melhor refletir sobre eles e, ainda que eventualmente sejam postos em atos, sermos capazes de suportar o desacordo com nossa consciência, e apostarmos que isso não será o suficiente para quebrar em definitivo as pazes com ela.
Dr. Eder Schmidt é médico, psiquiatra e psicanalista.
@drederschmidtpsiq
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