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COLUNA – NEOCONCRETA

COLUNA NEO                              

Relevar o revelado

.                                                             Neo Lara – advogado – (neo.lara@gmail.com)

                            O Homem que Matou o Facínora é um filme inspirador, rodado em 1962, dirigido pelo, já então consagrado, John Ford, que trouxe novas ideias à sua época. Seu mais importante faroeste retrata a melancolia do final de uma época marcante na história dos Estados Unidos, o Velho Oeste. Quando o idealista Ransom Stoddard (James Stewart) chega a cidade de Shinbone preferindo livros às armas, traz consigo a mensagem do final de uma era de imposições violentas para estreia de outra progressista. A narrativa traz à baila o papel da imprensa nessa transição e sua responsabilidade na formação da sua história e de seus heróis. Imortalizou a frase: “Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda”, maior corolário do quarto poder.

                            A imprensa detém o direito de elaborar as referências, os paradigmas e os modelos de uma sociedade? Tudo que tomamos como fato é realmente verdade?

                            Um golpe de Estado que já foi chamado de revolução derrubou o presidente do Brasil em 1964. A classe média, parte da Igreja Católica, empresários, militares e os meios de comunicação receavam que João Goulart aprovasse suas reformas de base junto ao Congresso. Longe de serem revolucionárias, essas reformas, entre outros benefícios, estimulavam o acesso à moradia e à educação superior aos mais carentes e estabelecia uma reforma agrária. Por conta dessa decisiva participação civil, o outrora chamado Golpe Militar passou a ser designado por pesquisadores, Golpe Civil-Militar, uma vez que, além dos arrolados acima, contou com efetiva colaboração de governadores e parlamentares.

                             Em plena era da guerra fria, a grande imprensa participou de intensa campanha financiada pelos EUA, hegemônicos na América Latina, de desestabilização do governo Goulart, o que desembocou no golpe civil-militar a caminho da ditadura militar. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade foram organizadas pelo Tio Sam, como se pode ver por esta mensagem enviada da Embaixada americana aos superiores ansiosos por medidas contra Goulart: “Estamos adotando medidas para favorecer a resistência a Goulart. Ações secretas estão em curso para organizar passeatas a fim de criar um sentimento anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas, na imprensa e nos grupos católicos”. Já em 1962, o então embaixador, Lincoln Gordon, advertia em outra mensagem: “Goulart está fomentando um perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas companhias americanas, a ITT e a Amforp, foram recentemente desapropriadas pelo governador Leonel Brizola. Tais ações representam uma ameaça aos interesses econômicos dos Estados Unidos”.

                              O governo Jango não tinha  comprometimento com qualquer projeto de ditadura, muito menos comunista.  Pelo contrário, não havia guerrilha instalada no país. Um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas em Dianópolis, na época em Goiás, hoje em Tocantins, havia sido destruído também em 1962 e reformas democratizadoras vinham sendo implantadas.

                             Os militares deram o golpe implantando uma ditadura cruel para favorecer os interesses americanos. Não para proteger a democracia. O perigo comunista foi um artifício usado para justificar a medida de força arbitrária. A população foi manipulada pela mídia conservadora e golpista.

                             Em 1º de abril de 1964, data em que o golpe foi consolidado, a imprensa clamava por sua efetivação em colunas e editoriais, como o “Fora!”, em que o Correio da Manhã pediu a saída de João Goulart.

                            Os militares governaram com mão de ferro por 21 anos. A oposição foi massacrada pela repressão desde o princípio. Prisões, violentos interrogatórios, tortura e homicídios ocorreram clandestinamente. Diferentemente de outras ditaduras, a grande imprensa nacional não teve coragem ou vontade de anunciar sua condição sob censura. Ao invés de reveladoras manchetes ou espaços em branco que sinalizassem resistência para comunicar o que estava acontecendo à nação brasileira, publicavam coniventes poemas e receitas culinárias que, de fato, lhes garantiam o jornal aberto e funcionando além da participação no mercado. O papel jornal era fornecido sob concessão do governo, o grande financiador de propaganda mantenedora dos veículos de comunicação. Cada um na mão de uma família, os cinco grandes grupos de comunicação à época eram no Rio de Janeiro, Jornal do Brasil e O Globo e, em São Paulo, Abril, Estadão e Folha. Parte da mídia só viria a se dar conta do conto em que caíra com o AI-5 em 1968, período mais duro da ditadura militar, que deu ao regime uma série de poderes para reprimir seus opositores: fechar o Congresso Nacional e outros órgãos legislativos (medida regulamentada pelo Ato Complementar nº 38), cassar mandatos eletivos, suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, intervir em estados e municípios, decretar confisco de bens por enriquecimento ilícito e suspender o direito de habeas corpus para crimes políticos.

                             “A educação é a base para a lei e a ordem”, estabelece como lema Stoddard, personagem de James Stewart em O Homem que Matou o Facínora,  quando começa a dar aulas para a população de Shinbone. Doniphon, o valente cowboy com pistola amarrada quase no joelho, personagem de John Wayne, acredita que o aprendizado é perda de tempo, pois o que vale é a lei da bala do passado contra a lei dos livros do futuro.

                             É simbólica a inserção da cena das eleições logo após a morte do facínora, como se aquele homicídio sepultasse o passado e abrisse as portas para o futuro na direção da evolução e do progresso com a formação de um Estado participativo na luta pelos direitos do povo. Deixando, assim, na poeira o tempo onde a desordem imperava.

                             Qualquer similaridade da ficção com a história recente do Brasil pré eleições de 2018 não é mera coincidência.

                            Quem é o homem que matará o facínora?

                            Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda.

 

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